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Se tentarmos imaginar o contexto em que Górki compôs sua "Ralé"
(originalmente chamada "No fundo"), uma Rússia entrando no século XX
socialmente devastada, politicamente decadente e economicamente
inviável, presa de uma sociedade baseada na hipocrisia, na sujeição e
numa vida medíocre e mesquinha, talvez possamos entender melhor a dureza
de seus "vagabundos", tornados célebres não só por seu teatro, mas por
muitos de seus contos.
A imagem do "outsider", daquele que se retira conscientemente de uma
sociedade cujos valores empobrecem e amortecem o espírito humano sempre
esteve presente em toda a literatura de Górki. Essa talvez tenha sido
uma de suas grandes armas contra o amesquinhamento
observado no homem médio das grandes cidades (o pequeno burguês),
sobretudo a partir do advento da Revolução Industrial, na Inglaterra,
vinte anos antes da virada do século. O reflexo deste verdadeiro "êxito
capitalista" espalhou-se por toda a Europa, causando profundas
transformações na sociedade russa da época.
O "vagabundo" de Górki é, sem dúvida, uma vítima do sistema, mas é
também aquele que se volta contra o sistema, negando-se a trabalhar e
comprazendo-se em sua miséria, onde então torna-se livre para exaltar os
valores derruídos pelo capitalismo. Entre esses valores, "liberdade" e
"verdade" estão em primeiro lugar, seguidos pela noção de "dignidade
humana", que para Górki (bem como para muitos de seus "vagabundos") nada
tem a ver com a aceitação passiva de sofrimento ou sua glorificação.
Para nós, eternos estudantes, ousar montar este verdadeiro baluarte do
"teatro realista" mundial é bem mais do que um desafio. Tanto quanto
como "artistas", é como "humanos"que temos que nos preparar para tal
façanha! Não basta simplesmente "contar a estória" ou "falar o texto com
propriedade"... Acima de tudo temos que ousar chafudar na lama com a
ralé, deixando nossas almas impregnarem-se desta "santa sujeira", a fim
de notarmos o essencial: se a vida é cruel, que a arte também seja!
Que a
"ralé" esteja convosco!
Adriano Garib
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